ABCMais
O Portal do Grande ABC

Publicidade

Insuficiência Adrenal: Já ouviu falar?

138

Pouco conhecida pela maioria das pessoas, a insuficiência adrenal (IA) é uma patologia rara, letal caso não tratada, que pode ser classificada como primária, secundária ou terciária dependendo da etiologia (origem) do problema.

Entendendo os diferentes tipos de Insuficiência Adrenal:

Insuficiência Adrenal Primária: Acima de cada rim existe uma glândula chamada adrenal responsável por sintetizar e liberar hormônios – cortisol, aldosterona e androgênios – essenciais para a manutenção da vida. Pessoas diagnosticadas com IA primária possuem danos nessas glândulas e com isso deixam de produzir e liberar esses hormônios. A principal causa da IA primária é autoimune, ou seja, células do sistema imunológico do indivíduo passam a identificar essa glândula como um corpo estranho e a atacam provocando a sua destruição. Além disso, infecção por sepse, tuberculose, HIV, trauma e câncer são doenças que também podem provocar a destruição das glândulas adrenais causando a insuficiência adrenal primária, também chamada de Doença de Addison.

Insuficiência Adrenal Secundária: Assim como a IA primária, a insuficiência adrenal secundária também pode ter diversas causas, no entanto, quando a origem é glandular, a disfunção está na glândula pituitária (hipófise) que está localizada na parte inferior do cérebro. As causas das disfunções nessa glândula podem surgir devido à traumas, adenomas, hipopituitarismo e radioterapia. Quando essa glândula é danificada ela deixa de secretar o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) e, na falta desse hormônio, não há estímulo para que a glândula adrenal secrete o cortisol, dessa forma, a camada exterior da glândula adrenal atrofia, deixando de produzir esse hormônio essencial.

Entretanto, a causa mais comum da IA secundária são as terapias com corticoides sintéticos (prednisona, prednisolona, meticorten etc), sendo que as chances de um paciente em uso dessas medicações desenvolver a IA secundária são maiores quando se utiliza doses elevadas por longo período. No entanto, mesmo pacientes em uso de doses baixas de corticoides, correm o risco de desenvolver IA secundária.

Insuficiência Adrenal Terciária: Na IA terciária o problema encontra-se no hipotálamo. Uma das funções do hipotálamo é controlar a secreção do hormônio liberador de corticotrofina (CRH). O CRH é responsável por estimular o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH), que por sua vez, é responsável por estimular a secreção de cortisol. Quando há danos na liberação do CRH, toda a cadeia de comunicação entre esses hormônios é afetada, resultando no que chamamos de IA terciária.

Assim como na IA secundária, a IA terciária também pode ser provocada por uso prolongado de corticoides sintéticos.

Ficou confuso? Vamos entender por que o uso de corticoides pode provocar Insuficiência Adrenal?

É simples, o nosso corpo é formado por vários órgãos que precisam se comunicar entre si para que tudo funcione bem. A forma como nosso corpo se comunica é através da liberação de hormônios, ou seja, os hormônios são como mensageiros levando informações de um órgão para outro. Como vimos acima, para o cortisol ser liberado pelas glândulas adrenais e exercer seu papel no nosso metabolismo, é necessário que ocorra uma comunicação entre hipotálamo, hipófise e glândula adrenal. Entretanto, a partir do momento que o cortisol é liberado, ele manda uma mensagem para esses órgãos avisando que já está disponível e que não é mais necessário continuar enviando esse tipo de mensagem.

Quando tomamos corticoides, principalmente em altas doses, mandamos uma mensagem para o hipotálamo e hipófise de que não é necessário estimular a glândula adrenal porque já tem muito corticoide disponível. Com isso, o cortisol endógeno (aquele que é produzido pelo nosso corpo), deixa de ser produzido e passamos a viver com o cortisol sintético (medicação). É por isso que quando fazemos tratamento com corticoide a retirada da medicação acontece aos poucos, para que essa “rede de comunicação” se refaça, os níveis de cortisol endógeno voltem ao normal e o paciente não experimente os desagradáveis e graves sintomas da falta de cortisol no organismo.

Quais os sintomas da Insuficiência Adrenal?

Os sintomas da IA estão relacionados com a falta de cada hormônio e os mecanismos compensatórios no nosso organismo. A falta de cortisol provoca hipoglicemia, cansaço, mal-estar, fraqueza, vômitos, diarreia e intolerância ao estresse. Já a baixa secreção de aldosterona provoca pressão baixa, baixa concentração de sódio no sangue e alta concentração de potássio, alterações neuromusculares e cansaço. A falta de hormônios androgênios afeta a libido, o sistema imunológico e a qualidade de vida. Na IA primária também ocorre hiperpigmentação da pele devido aos altos níveis de ACTH.

Qual o tratamento?

O tratamento é feito com reposição dos hormônios que estão em baixa. A hidrocortisona é o hormônio mais utilizado para tratamento da IA por ser mais semelhante com o cortisol endógeno, no entanto, no Brasil, o tratamento geralmente é feito com acetato de cortisona ou prednisona. Os pacientes diagnosticados com IA primária também fazem uso de Florinefe®, que até pouco tempo não era disponibilizado no Brasil e era necessário recorrer às farmácias de manipulação para sua obtenção. O

Florinefe® faz o papel da aldosterona, por isso é utilizado apenas por pacientes portadores da IA primária. Pacientes portadores da IA secundária conseguem manter os níveis de secreção da aldosterona porque a camada da glândula responsável por sua secreção não está danificada.

Prognóstico:

Caso não tratada, pacientes com IA primária têm uma expectativa de vida de aproximadamente dois anos após o diagnóstico de acordo com alguns estudos. No entanto, atualmente, existem diversas opções de medicação para a reposição do cortisol, como por exemplo, a hidrocortisona e a prednisona. Alguns estudos apontam que pacientes diagnosticados com IA são mais suscetíveis a desenvolverem doenças infecciosas e cardiovasculares. Caso os pacientes sejam tratados com doses acima das necessárias, é possível que desenvolvam obesidade, osteoporose e diabetes. Por outro lado, caso a dose de tratamento esteja abaixo do necessário o paciente experimentará uma série de desconfortos comprometendo sua qualidade de vida. Já alguns pacientes, mesmo com o tratamento adequado, apresentam crises adrenais recorrentes.

O que vem por aí?

Algumas formulações novas vêm sendo testadas em estudos clínicos. O principal objetivo dessas novas drogas é “imitar” o ciclo natural da secreção de cortisol. Além disso, apesar dos estudos estarem apenas na fase inicial, as terapias celulares parecem ser um campo bastante promissor para o tratamento da Insuficiência Adrenal no futuro.

Comentários